quarta-feira, 16 de junho de 2010

A explosão da beleza

“Espelho, espelho meu, diga se há no mundo mulher mais bela do que eu.”



Mas nem sempre foi assim. No decorrer dos séculos e mesmo dos milênios, a estética feminina foi somente algumas vezes colocada como grande atributo. Na pré-história, nossas ancestrais eram representadas com imensos seios, ventres descomunais, ancas enormes, denunciando sua função de procriação. Chamadas pelos estudiosos de “Venus esteatopígias”, suas cabeças são insignificantes, sem feições. Na verdade, esta visão da mulher como fecundidade prolongou-se nos meios rurais até o início do século XX. Nestas sociedades, a beleza feminina, ainda que notada, era vista como um mal, do qual deviam fugir os rapazes.


O fato é que, para que a beleza feminina tivesse seu lugar de destaque, foi preciso que surgisse o Estado e com ele se estabelecesse uma sociedade em que a hierarquia social distinguisse mulheres trabalhadoras e mulheres isentas do trabalho, ou seja, pobres e ricas. E às ricas, ociosas, era permitido cuidar de si mesmas, para deleite de seu homem. Na Grécia, malgrado a homossexualidade masculina, legítima e, digamos, quase oficial, a beleza feminina foi amplamente homenageada. Assim como em Roma. Já a tradição judaico-cristã colocou-a no fogo, e, durante toda a Idade Média, a mulher foi considerada a filha maldita de Eva, a que provocou a queda de Adão e sua expulsão do Paraíso.

Mas a Renascença, trazendo de volta os valores da tradição greco-romana, trouxe também de volta o culto da beleza feminina. E basta olharmos as obras dos grandes artistas da época, como Leonardo da Vinci, Giotto, e outros. E este culto nunca mais cessou. Mas, então este é o final da “história da beleza”? Não, pois se o olhar fascinado sobre a mulher ressurgiu na Renascença, ele limitou-se a uma classe social, aquela mais rica. A “história da beleza” toma novos rumos, evolui, a partir dos fins do século XIX, quando ela torna-se, pouco a pouco, acessível a todas nós. No século XX, imprensa, cinema, publicidade, pela primeira vez, dizem, para que todo mundo ouça, que todas podem ser belas.

Após a Primeira Guerra 1914-1918 - o consumo de cosméticos acelera-se, tornam-se populares os esmaltes e os batons. Mas é a partir dos anos 50 que o consumo dispara, multiplicando a indústria de cosméticos e perfumes, que se eleva a somas de bilhões. E também a moda, o prêt-à-porter. Enfim a beleza torna-se artigo de consumo corrente. E o mais surpreendente, o interesse desloca-se da beleza puramente facial para sua conservação na totalidade. Cuida-se do corpo, mantendo-o livre de flacidez, esbelto e saudável. Não mais a “camuflagem” das maquiagens enganadoras, mas uma pele e um corpo mais jovem. Práticas de esportes, academias, salões de massagens, novas técnicas estéticas, fazem surgir nos últimos quarenta anos uma mulher diferente, aquela da "geração sem idade”. E o mais importante, sem que isto seja privilégio de uma só classe social.

Texto baseado no livro do filósofo francês Gilles Lipovetsky – La troisième Femme – Permanence et révolution du féminin. Paris Gallimard – 1997.

2 comentários:

  1. Belo texto que põe em destaque esta etapa, contemporânea, da reflexão sobre o gênero, que foge às distorsões das feministas enragés. Independência, liberdade, autonomia, afirmação da mulher sem esquecer a sua feminilidade. Ainda precisamos, no Brasil, caminhar muito para que esta ordem de valores tenha plena vigência. Mulheres ainda são discriminadas no mercado de trabalho e ganham menos do que os homens. É bom destacar que a base da reflexão acerca dessa projeção da mulher na sociedade não deixa de ter origem cristã. Afinal, foi Cristo quem destacou que todos temos o mesmo valor pelo fato de sermos filhos de Deus. Foi Ele, outrossim, quem falou, sem tapujos, que as prostitutas precederiam, no reino dos Céus, aos fariseus e aos doutores da lei.

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    1. Dissertação com coerência e Liane com a realidade. Discordo apenas da assertiva de "mulheres ganham menos"! Nas mesmas funções? Diferentes? Hoje e6 fato, que se existe, deve ser denunciado ao MP.

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